Uma carta as nuvens
Uma carta as nuvens
Hoje lembrei do teu amor, do gosto do seu ciúmes ao me ver ali com nosso bebê no colo. Você dizia que ele havia escolhido a mim e que tudo estava bem. Eu sabia que não estava, sabia que se sentia menos amada e por isso tentava contornar a situação dizendo que não tinha nada a ver e que também te amava. Queria que se sentisse amada por tudo e por todos. A vida não foi tão boa nesse sentido e se tratando de amor, as lembranças são poucas.
Lembro que me contou muito sobre e disse que seu pai já havia sido legal um dia. Eu queria que nossos filhos te amassem mais que a mim, assim como eu. Evitava que me visse com eles para que não se sentisse menos amada porque merecia todo o amor que há no mundo. Eu via que me amava com tudo.
Nosso amor hoje está suspenso, como uma nuvem que vai de leste a oeste e de norte a sul esperando ansiosa que o destino se adiante e faça com que nos reencontremos novamente para chover em nós e cultivar o que foi plantado há tanto tempo, mas que os erros humanos se esqueceram de cuidar e por isso pereceu e agora esmaece no sul.
Hoje lembrei de outro amor que não foi vívido por conta do que eu ainda sentia. Esse possível amor me alegrou com uma carta como essa em que agradecia e dizia palavras bonitas sobre momentos vividos e que não puderam continuar porque eu ainda vivia os nossos. Você se permitiu amar de novo, aceitou, e como sempre se jogou de corpo e alma e isso faz com que eu te admire ainda mais. Sempre mais forte, mais determinada, mais corajosa. Se permitiu viver e vive. Eu ainda vivo o nosso amor; alguns dias, quando a nuvem passa; não todos, temos tido dias ensolarados já faz um tempo; em muitos não tenho amor algum, a noite cai e vai embora sem que ao menos olhe para o céu, em outros me amo, agora tenho uma nuvem só pra mim. Não é das mais bonitas ou então carregadas, não tem formato de bailarina, nem de soldado, também não é das mais completas, mas tenho notado que tem vindo com mais frequência que a nossa. Isso é bom, acho que nossa nuvem deve ser a maior e mais importante, pois quanto menor, mais raios carrega. Mas hoje, lembrei da nossa.
Um de nossos filhos cresceu ainda mais. Sinto que não é tão feliz quanto antes. Não que não se divirta, ele corre sem freio, ninguém consegue alcança-lo e continua fugindo do banho e chorando pra sair. Já não dorme comigo, aprendi a separar as coisas e sempre limpo a cama antes de deitar, agora eu detesto qualquer sujeira. Nosso outro filho, aquele que dormia no meu colo e que eu evitava que visse, infelizmente desapareceu e me dói dizer isso. Você lembra da natureza selvagem que tinha. Sumia e muitas vezes voltava machucado, carente e com fome. Hoje, quando sua filha deitou-se em meu colo pra dormir, lembrei do teu amor e hoje, eu gostaria que visse.
Hoje lembrei do teu amor e de como você era e ainda deve ser. Com o tempo percebi que tudo o que eu queria ser era você e me orgulho em dizer que sou. Será que as pessoas aceitam outras só para não ficarem sozinhas? Eu acho que você não consegue ficar sozinha. Nem deve. É bom ter alguém, mas também é bom ter a si mesmo. Você tem e por isso sempre tem alguém. Hoje vejo que é uma enorme nuvem, branca, bonita e que pode ter qualquer formato e que chove de acordo com as rezas e súplicas e chove calma e necessária. Seria egoísmo querer que chovesse só em mim. É uma nuvem curiosa e que evita a rotina e o morno, que se deixa levar pelo vento, e vai pra onde precisar em busca de uma brisa nova e empolgante. Afinal, é apenas uma nuvem e não precisa ser mais nada.
Estou me tornando como você, e queria te contar, pois é uma notícia boa, ser você é incrível. Me desculpa sobre tudo e não fique triste, mas se ficar, chova um pouco, a chuva combina com a tristeza. Eu costumo dormir ouvindo a chuva.
Iran Mendez

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