Quem matou? (História completa)
Quem matou?
Era uma tarde fria e já começava a cair uma fina garoa. Estava sentada em seu quarto pensando na vida e pensando em tudo e em sua situação atual. Não estava muito contente, pois nada havia saído como planejado. Com essa idade já pensava que teria família constituída, dinheiro, carro, casa e muito conforto, porém, nesse momento estava morando em um lugar que não gostava e com pouco ou quase nenhum dinheiro. Ao olhar pela janela viu um gato preto, pensou que isso não poderia ser um bom sinal logo nesse momento.
Sua vida era envolta por poucas pessoas e nem todas eram legais. Tinha um relacionamento amoroso que já havia terminado várias vezes por conta de machismo, mas quando ele dizia que havia mudado, sempre dava mais uma chance. Os vizinhos nitidamente não gostavam dele por conta das brigas que ouviam, seu melhor amigo o odiava e já tinha o ameaçado, pois não aguentava mais ver sua amiga sofrendo e seu irmão o tinha deixado com o olho roxo e também o ameaçava sempre que o via.
O dia passou vagarosamente e não conseguia ver muita perspectiva de melhora, porém notou que fazendo algo ou não, o tempo passava da mesma forma. Decidiu virar a mesa, mudar tudo, a começar pelo seu quarto. Porém, precisava ir até o mercado antes disso se quisesse ter jantar. Foi andando lentamente e olhando para todos os lados, como uma típica pessoa que não sabe o que quer da vida. Havia terminado o ensino médio há 3 anos e desde então apenas conseguiu um emprego que não gostava, mas que pagava as contas e por isso continuava nele e nesse ciclo vicioso em que a maioria das pessoas se escondem. Compras feitas, voltou para casa e quando chegou deu um grito de horror. O gato que ainda estava por ali, deu um salto e sumiu correndo para a árvore mais próxima. Ali, na sala da sua casa havia um corpo ensanguentado e sem vida. Era seu namorado.
Em algumas horas sua casa estava isolada, cheia de policiais e alguns repórteres sedentos por noticias. Seu irmão, seu amigo e a vizinhança toda também estavam por ali. Os policiais estavam perguntando as pessoas que moravam nas redondezas se tinham visto algo, mas ninguém tinha visto nada, apesar de o vizinho do lado dizer que ele teve o que mereceu, os outros nem o conheciam. Ela precisou ir até a delegacia e relatou tudo a policia, quando perguntaram se tinha mais alguém em casa, respondeu que não, somente um gato preto rondando por ali. Devido as brigas e ameaças, seu irmão e amigo também foram chamados para depor, assim como o homem que falou que o ex namorado teve o que mereceu.
O vizinho ao lado tinha por volta de 50 anos, já começava a ver os primeiros sinais da calvice, morava sozinho e parecia estar sempre estressado, mal dava bom dia, saía cedo e chegava tarde, raramente recebia visitas e não tinha animais de estimação, não gostava de barulho e já havia reclamado inúmeras vezes, mas não estava adiantando, pelo visto, precisaria resolver sozinho.
O amigo tinha a mesma idade dela, cresceram e estudaram juntos a vida toda, quando crianças, seus pais sempre diziam que ainda iriam se casar um com o outro e ter um bela família, isso não aconteceu, mas nunca perderam o que construíram, ele era seu porto seguro, enquanto ela era para ele a pessoa que mais amava e não aguentava mais vê-la sofrendo por alguém que nem a merecia, as coisas não podiam continuar assim.
Seu irmão era um pouco mais velho, tinha 25 anos e sempre a protegeu de absolutamente tudo, conversavam muito e se davam muito bem, mas nunca aceitou o namoro da irmã, ela havia perdido seu brilho após conhecer o homem, aconselhava que saísse dessa, que encontraria alguém que a merecesse, mesmo concordando ela não conseguia dizer um adeus definitivo, parecia que precisava de ajuda.
Todos tentavam esconder, mas pareciam aliviados com o acontecido. O vizinho disse a policia que estava em casa, mas não tinha visto nada e também não tinha como provar. O amigo estava fazendo exercícios no parque e também não tinha como provar. O irmão estava no trabalho, porém trabalhava sozinho em seu escritório no centro e com isso, não tinha álibi. Todos foram dispensados...
Como a casa virou cena de crime, seu irmão pediu que ficasse com ele até tudo passar. Havia ficado muito abatida e chocada com o crime, pois apesar de tudo, já haviam vivido bons momentos. Se perguntava a todo instante, quem poderia tê-lo matado, até onde sabia, não tinha inimigos, ao menos não além de seu irmão e amigo. Será que foi algum deles? Quando pensou isso, logo se puniu. Onde já se viu pensar algo desse tipo, eles jamais fariam isso. Resolveu fazer um café e esquecer essa ideia, porém uma voz dizia para perguntar a eles, os conhecia muito bem e logo descobriria se estivessem mentindo.
Já era fim do dia quando decidiu perguntar ao seu amigo. Foi até a casa dele e perguntou:
- Você mataria meu namorado?
O amigo arregalou os olhos assustado e disse:
- Jamais, está louca? Eu o odiava, mas não estragaria minha vida por conta disso.
Ela o abraçou e pediu desculpas dizendo que precisava saber. Conversaram por um bom tempo e disse que perguntaria ao irmão também, somente por desencargo de consciência.
Quando seu irmão chegou do trabalho, não perdeu tempo e logo disse:
- Você mataria meu namorado?
- Boa noite pra você também.
- Me responde
- Claro que não, já tive vontade porque ele não prestava e você sabe disso, mas eu não seria tão idiota.
- Tem certeza?
- Você é da polícia agora? Deixa eles trabalharem que logo descobrem quem matou aquele traste, não foi o crime mais bem planejado do mundo.
- Eu só precisava saber disso, estou aliviada.
Dois dias se passaram e a polícia liberou sua casa.
- Tem certeza que quer voltar pra lá? - Perguntou o irmão.
- Tenho sim, o aluguel é barato e preciso enfrentar isso.
Quando chegou a casa, tudo estava limpo e organizado, como se nada tivesse acontecido. Algumas horas depois os policias apareceram para dizer que as investigações continuavam e que logo descobririam quem fez isso.
Quando saiu o corpo de delito e exames, descobriram que a causa da morte tinha sido envenenamento. Dois policiais foram até a casa contar a ela e convocá-la para ir até a delegacia. Agora se tratava de um homicídio. Chegando na delegacia, foram até a sala de interrogatório.
- Senhora, temos um caso de envenenamento e encontramos além do veneno, café, ou seja, esse veneno foi misturado no café dele, e a morte de acordo com os peritos, havia acontecido há mais de 24 horas. Como pode nos explicar isso?
- Como assim explicar? Você está me acusando?
- Entenda que tudo o que temos são essas informações e isso coloca a senhora como a principal suspeita.
- Suspeita? Ele era meu namorado, por que eu iria matá-lo? Além do mais eu saí de casa e quando voltei ele estava lá, como posso ter feito isso?
- É exatamente o que queremos entender. Tem mais alguém que tinha acesso a sua casa e que possa ter tomado café com ele?
- Não, só eu tenho a chave da minha casa.
- Quando a senhora saiu de casa para ir até o mercado, trancou a porta?
- Sim, tranquei.
- E quando voltou, estava trancada?
- Sim, estava.
- Então como alguém poderia tê-lo colocado lá dentro?
- Eu não sei, esse é o trabalho de vocês.
- Nós precisamos da sua colaboração senhora. Vocês brigavam muito?
- De vez em quando, já terminamos e voltamos algumas vezes.
- E antes da morte dele estavam brigados?
- ...
- Estavam brigados senhora? A senhora teria algum motivo para matá-lo?
- Estávamos brigados, eu havia dito que queria terminar novamente, mas não eu jamais o mataria, nós tivemos várias brigas, mas tivemos muitos momentos bons também, só queria seguir minha vida sem essas brigas.
- A senhora faz uso de algum tipo de remédio?
- Sim, tomo alguns para ansiedade. Aliás, tomo por conta das brigas que tínhamos.
- Já teve algum problema de memória ou algo do tipo?
- Onde você quer chegar?
- Assim como você, só quero resolver esse caso e voltar pra casa.
- Uma vez, quando eu frequentava a psicóloga, a mesma me disse que era possível que eu tivesse transtorno dissociativo e que devia procurar ajuda especializada, mas acho que só era uma época ruim da minha vida mesmo.
- Entendo. Bom, acho que não preciso de mais perguntas, porém, não posso liberá-la. Traremos especialistas para conversar com você e descobrir se realmente tem esse transtorno, todavia, é nossa principal suspeita e o transtorno pode estar fazendo com que não se lembre do que fez.
- Eu não matei meu namorado, já disse, eu que tive uma perda, não posso ser suspeita.
- Tudo que temos nos diz o contrário, e caso o transtorno não se prove, ainda assim não poderá sair da cidade e nem mudar de endereço, as investigações continuam e precisamos apenas saber a que horas seu namorado entrou na sua casa.
Muito assustada e confusa, ela já começava a desconfiar de si mesma. Seria ela capaz de fazer algo tão horrível e não se lembrar disso?
Após muitas horas e muita conversa com psiquiatra, o mesmo atestou positivo para o transtorno dissociativo. Ao saber, ficou perplexa e ainda mais assustada. Era uma assassina ou na melhor das hipóteses, tinha uma doença.
A polícia precisava saber sobre o horário de entrada do namorado na casa da moça para definir se havia sido ela mesmo quem o havia matado. Ao conversar novamente com os vizinhos e consultar as poucas câmeras dos comércios ao redor, encontraram o homem caminhando em direção a casa mais de 24 horas antes de sua morte e a próxima vez que foi visto, já estava sem vida. Com isso a investigação estava concluída e o assassino descoberto.
Uma das câmeras pegava apenas uma parte da casa da moça, mas foi crucial para desvendar o crime. No vídeo era possível ver o homem chegando até a casa, porém, antes da bater na porta, o vizinho o chamou, conversaram por alguns segundos no lado de fora e entraram. Um dia depois, ao ver a moça saindo de casa, o vizinho abre cuidadosamente a janela e com alguma dificuldade traz um corpo e entra com o mesmo, saindo rapidamente, alguns segundos depois.
O vizinho foi trazido algemado até a delegacia e quando interrogado, confessou que o havia matado, pois notara que o namorado era extremamente machista e já teria ameaçado a moça de morte caso o deixasse novamente. Além disso, amava a moça e queria protegê-la, pois há alguns meses descobrira que ela não era apenas sua vizinha, mas também, sua filha.
Ao ouvirem isso, os policiais ficaram em choque. Tinham um crime, um assassino e ao mesmo tempo, uma história de amor.
FIM
O Transtorno Dissociativo, também conhecido como distúrbio de conversão, é um transtorno mental no qual a pessoa sofre de um desequilíbrio psicológico, havendo alterações na consciência, memória, identidade, emoção, percepção do ambiente, controle dos movimentos e comportamento.
Assim, a pessoa com este transtorno pode vivenciar diferentes tipos de sinais e sintomas de origem psicológica, que surgem de forma isolada ou em conjunto, sem que haja qualquer doença física que justifique o caso. Os principais são:
Amnésia temporária, seja de eventos específicos ou de um período do passado, chamada de amnésia dissociativa;
Perda ou alteração dos movimentos de partes do corpo, chamado de transtorno dissociativo do movimento;
Lentificação dos movimentos e reflexos ou impossibilidade de se mover, semelhante a um desmaio ou um estado de catatonia, chamado de estupor dissociativo;
Perda da consciência de quem é ou de onde está;
Movimentos semelhantes a uma crise epiléptica, chamado de convulsão dissociativa;
Formigamentos ou perda da sensibilidade em um ou mais locais do corpo, como boca, língua, braços, mãos ou pernas, chamado de anestesia dissociativa;
Estado de extrema confusão mental;
Múltiplas identidades ou personalidades, que é o transtorno dissociativo de identidade. Em algumas culturas ou religiões, pode ser chamada de estado de possessão. Se quer saber mais sobre este tipo específico de transtorno dissociativo, confira Transtorno Dissociativo de Identidade.
É comum que os portadores de transtorno dissociativo apresentem mudanças de comportamento, como uma súbita reação exaltada ou desequilibrada, por isso, este transtorno também é conhecido como histeria ou reação histérica.
Geralmente, o transtorno dissociativo costuma se manifestar ou ser agravado após eventos traumáticos ou de grande estresse, e costuma surgir de forma brusca. Os episódios podem surgir de vez em quando ou se tornarem frequentes, a depender de cada caso. Também é mais comum em mulheres do que em homens.
O tratamento do transtorno dissociativo deve ser orientado por um psiquiatra e pode incluir uso de remédios ansiolíticos ou antidepressivos para aliviar os sintomas, sendo muito importante a realização de psicoterapia.
Como confirmar
Durante as crises de transtorno dissociativo, pode-se acreditar que se trata de uma doença física, por isso, é comum que o primeiro contato destes pacientes seja com o médico no pronto-socorro.
O médico identifica a presença desta síndrome ao pesquisar intensamente alterações na avaliação clínica e em exames, porém nada de origem física ou orgânica que explique o quadro é encontrado.
A confirmação do transtorno dissociativo é feita pelo psiquiatra, que irá avaliar os sintomas apresentados nas crises e a existência de conflitos psicológicos que possam estar desencadeando ou agravando a doença. Este médico também deverá avaliar a presença de ansiedade, depressão, somatização, esquizofrenia ou outros transtornos mentais que pioram ou que confundem com o transtorno dissociativo. Entenda quais são e como identificar os transtornos mentais mais comuns.
Como é feito o tratamento
A principal forma de tratamento do transtorno dissociativo é a realização de psicoterapia, com um psicólogo, para ajudar o paciente a desenvolver estratégias para lidar com o estresse. As sessões são mantidas até que o psicólogo ache que o paciente é capaz de gerir as suas emoções e relações de forma segura.
Também é recomendado um acompanhamento com o psiquiatra, que irá avaliar a evolução da doença e poderá prescrever medicamentos para aliviar os sintomas, como antidepressivos, como Sertralina, antipsicóticos, como Tiaprida ou ansiolíticos, como Diazepam, caso seja necessário.

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